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[LIVRO] Leia o primeiro capítulo de All The Crooked Saints.
10.Set

Em maio de 2017, Maggie Stiefvater liberou o primeiro capítulo do seu novo livro Todo os Santos Tortuosos (em tradução literal). Confira traduzido abaixo, lembrando que a tradução não é oficial.

 


C O L O R A D O, 1 9 6 2

Você pode ouvir um milagre de uma longa distância depois que escurece.

Milagres são como ondas de rádio. Não são muitas pessoas que percebem que uma onda de rádio normal e um milagre extraordinário possuem muitas coisas em comum. Se não fosse seus próprios dispositivos, ondas de rádio não poderiam ser ouvidas por mais do que sessenta ou setenta quilômetros. Elas viajam em uma linha reta perfeita desde a sua fonte de transmissão, e já que a Terra é redonda, não demora muito para elas se separarem do chão e irem para as estrelas. Não iriamos todos, se tivéssemos a chance? É uma pena que milagres e ondas de rádios são invisíveis, porque seria uma bela visão: fitas de maravilhas e sons se estendendo em formas retas e verdadeiras pelo mundo inteiro.

Mas nem todas ondas de rádio e milagres escapam sem serem ouvidos. Alguns saltam do teto da ionosfera, onde elétrons livres e úteis oscilam em uma harmonia alegre, antes de jogá-los de volta para a Terra em novos ângulos. Desse modo, um sinal pode escapar de Rosarito ou Nogales, bater na ionosfera, e se encontrar em Houston ou Denver, mais forte do que nunca. E se esta transmitindo depois que o sol se pôs? Muitas coisas funcionam melhor na vida sem o intrometido do sol buscando atenção, e esse processo é uma dessas coisas. À noite, as ondas de rádio e os milagres podem saltar para cima e para baixo tantas vezes que em alguns casos improváveis, elas acabam alcançando transmissores e santos que estão a milhares de quilômetros de distância de suas fontes. Desse modo, um pequeno milagre na pequena Bicho Raro pode ser ouvido lá em Philadelphia, ou ao contrário. Isso é ciência? Religião? É difícil até para os cientistas e para os santos falarem a diferença entre os dois. Talvez não importe. Quando você cultiva sementes invisíveis, você não pode esperar que todos concordem com a forma invisível do seu cultivo. É sábio saber que eles simplesmente crescem juntos.

Na noite em que essa história começa, um santo e um cientista estavam ouvindo milagres.

Estava escuro, escuro de verdade, do modo que fica no deserto, e os três primos Soria se juntaram na traseira da camionete. Acima deles, as estrelas maiores haviam empurrado as menores para fora de sua sagrada casa há uma hora. O céu estava um negro puro até os arbustos e flores que preenchiam o vale.

Estava quase silencioso, exceto pelo rádio e pelos milagres.

A camionete estava estacionada em uma grande locação de areia áspera, a muitos quilômetros da cidade. Não havia nada para olhar, apenas a camionete Dodge 1985 vermelha desbotada em movimento, que, de alguma forma, tinha uma expressão otimista. Um farol traseiro estava rachado. O pneu dianteiro direito estava levemente mais murcho que o esquerdo. Havia uma macha no banco de passageiro que sempre iria cheirar a Coca-Cola de cereja. Um pequeno alebrije de madeira: um animal imaginário feito de parte jaguaré parte coiote, estava pendurado no espelho retrovisor. A camionete tinha chapas Michigan, embora não fosse de Michigan.

O rádio estava tocando. Não o do banco da frente – no banco de carga de trás, um Motorola azul retirado do balcão da cozinha de Antonia Soria. Estava tocando a estação dos primos Soria. Não a que eles gostavam de ouvir – a que eles haviam criado. A carga era seu estúdio de transmissão sob rodas.

Eles, deles, na verdade, era a camionete de Beatriz Soria, e a estação de rádio de Beatriz Soria. Assim era toda história dos Soria, mas era dela mais do que qualquer um. Embora não fosse a voz dela repercutindo nas ondas de rádio, era o seu complicado e duro coração que dava poder às ondas. Outras pessoas utilizavam sorrisos e lágrimas para mostrar como se sentiam; a enigmática Beatriz Soria tinha um banco de carga cheio de transmissores no deserto de Colorado. Se ela se cortasse, onde quer que estivesse, os auto-falantes na carga iriam sangrar.

“… se você está cansado de cantar apenas pare para balançar,” o DJ prometeu, “você irá nos encontrar depois do pôr do sol mas antes do sol nascer.”

Essa voz pertencia ao mais novo dos primos, Joaquin. Ele tinha dezesseis anos, se levava muito a sério, e preferia que você o levasse também. Ele era agradável e barbeado, com fones de ouvido pressionados contra uma única orelha para evitar bagunçar seu cabelo, que ele havia modelado em um topete estilo Elvis em uma altura considerável. Duas lanternas o iluminavam como ouro, focos prematuros, deixando todo o resto lilás, azul e preto. Ele usava a mesma camiseta que estivera usando por dois meses: manga curta com um número vermelho havaiano impresso.

Ele havia visto alguém usando uma camiseta parecida no único filme que havia visto em 1961 e se dedicou a recriá-la para si mesmo. Um jardim de garrafas de refrigerante cheias de água cresciam em seus pés. Ele tinha fobia de desidratação e para combater isso, sempre carregava água o suficiente para o deixar hidratado por dias.

Depois que escurecia, ele não atendia pelo nome de Joaquin Soria. Na estação móvel que percorria o alto deserto, ele se chamava Diablo Diablo. Era o nome de DJ que iria escandalizar tanto sua mãe quanto sua avó se elas descobrissem, o que era o propósito. Verdade seja dita, escandalizava o próprio Joaquin. Ele aproveitava a emoção do perigo cada vez que o dizia, supersticiosamente acreditando que se ele sussurrasse um terceiro Diablo depois do nome, o diabo poderia realmente aparecer.

Aqui estava uma coisa que Joaquin Soria queria: ser famoso. Aqui estava uma coisa que o assustava: morrer sozinho na poeira seca do lado de fora de Bicho Raro.

“… mais daquela dança e sonho,” a voz de Diablo Diablo continuou, “o som mais quente de 62, desde Del Norte até Blanca e de Villa Grove até Antonito, a música que irá salvar a sua alma.”

Os outros dois primos ali, Beatriz e Daniel, arquearam suas sobrancelhas. Essa afirmação de cobrir toda o vale de San Luis era, certamente, uma farsa, mas os interesses de Joaquin tendiam mais para coisas que seriam boas se fossem verdadeiras do que para coisas que realmente fossem verdadeiras. Não, a estação não cobria todo vale, mas que lugar agradável o mundo seria se pudesse.

Daniel mudou sua posição. Os primos estavam de joelhos grudados na traseira, e por causa dessa proximidade apertada, o longo pé de Daniel não podia deixar de mexer uma das garrafas d’água de Joaquin. A tampa de metal saltava pelo chão, escorregando pela borda como se estivesse sendo perseguida. Os fios no chão pulavam por causa da água. Desastre sussurrou brevemente. Então Joaquin agarrou a garrafa e a sacudiu para Daniel.

“Não quebre a camionete,” ele disse. “É nova.”

Não era nova, mas era nova em ser uma estação de rádio. Antes da camionete ter sua função atual, tinha sido usada pela família da irmã da esposa do irmão de Ana Maria Soria, para transportar os irmãos Alonso do trabalho de pintura para bares. A camionete havia ficado cansada de todo esse tédio e havia quebrado, e já que os irmãos Alonso preferiam pintar e beber do que elevar os espíritos da camionete, haviam a deixado para crescer ervas daninhas. De fato, durante esse tempo, obteve umidade o suficiente para um pantanal e carriços que cresceram grossos e rápidos pelo telhado, transformando completamente a camionete em terra molhada no meio de deserto. Animais vinham de milhas de distância para viver nesse oásis – primeiro um castor, depois doze rãs-leopardo com suas canções, e então trinta trutas que estavam tão ansiosas para uma nova casa que foram para a camionete através do vale. O golpe final veio quando quatro dúzias de grou-canadiano chegaram – tão altas como homens e duas vezes mais barulhentas. O caos deste pântano manteve todos acordados, cada hora do dia.

Beatriz havia ficado com a tarefa de espantar os animais para longe. Foi aí que ela descobriu a camionete embaixo de tudo. A restauração lenta da camionete havia despejado os animais tão gradualmente que o novo pântano mal percebeu que o estavam pedindo para sair, e logo a maioria da família Soria não lembrava que havia estado ali. Mesmo a camionete parecia ter sido esquecida pela maior parte. Embora as tábuas de madeira do chão ainda estivessem manchadas com círculos vermelho-ferrugem de latas de tinta, a única lembrança de seu tempo como um ecossistema era um ovo que Beatriz encontrou sob o pedal. Era enorme, do tamanho de uma mão, com o formato da lua e leve como o ar. Ela havia feito uma rede com rede de cabelo transparente e pendurado atrás da camionete para dar sorte. Agora balançava de um lado para outro acima dos transmissores da Guerra da Coréia, plataformas de terceira mão com fitas, plataformas giratórias quebradas e tubos de limpeza, registros e capacitadores.

Diablo Diablo (Diablo!) murmurava, “Agora nós vamos tocar uma bela canção de the Drifters. Isso é ‘Save the Last Dance for Me’… mas nós não acabamos de dançar, continuem ligados.”

Na verdade, Joaquin não tocou uma bela canção dos the Drifters, embora tenha começado a tocar de uma das fitas. Toda a gravação tinha sido pré-gravada para o caso da estação ter que ir embora na pressa. A Comissão Federal da Comunicação tinha uma visão sombria da juventude americana, estabelecendo estações de rádio sem licença no seu tempo livre, particularmente porque a juventude americana parecia ter um gosto terrível para música e um desejo de revolução. Multas e prisão esperavam os infratores.

“Você acha que eles podem estar nos rastreando?” Joaquin perguntou esperançoso. Ele não queria ser perseguido pelo governo, mas ele queria ser ouvido, e ansiava tanto pelo segundo que sentiu que era seu dever assumir que o primeiro era inevitável.

Beatriz estava sentada perto do transmissor, os dedos balançavam vagamente sobre ele, presos em sua própria imaginação. Quando percebeu que Daniel e Joaquin estavam esperando que ela respondesse, disse, “Não se o alcance não melhorou.”

Beatriz era a segunda prima mais velha. Enquanto Joaquin era barulhento e colorido, Beatriz era serena e misteriosa. Ela tinha dezoito anos, uma Madonna hippie com cabelos pretos divididos com precisão para cada lado de seu rosto, um nariz em formato de J e uma boca pequena e enigmática, que os homens iriam descrever, provavelmente, como uma rosa por abrir – mas Beatriz se descreveria como “minha boca.” Ela tinha nove dedos, já que havia acidentalmente cortado um deles quando tinha doze anos, mas ela não se importou muito – era apenas um mindinho da sua mão direita (ela era canhota). No mínimo, havia sido uma experiência interessante, e de qualquer forma, não era como se ela pudesse colocar o dedo de volta agora.

Joaquin estava na estação apenas pela glória, mas o envolvimento de Beatriz era, inteiramente, por gratificação intelectual. Tanto a restauração da camionete e a construção da rádio haviam sido quebra-cabeças, e ela gostava de quebra-cabeças. Ela entendia quebra-cabeças. Quado ela tinha três anos, ela havia inventado uma ponte secreta e retrátil da janela de seu quarto até o pasto dos cavalos que a permitia atravessá-la de pés descalços, no meio da noite, sem ser espetada pelas rebarbas da cabeça da cabra que atormentavam a área. Quando ela tinha sete anos, havia inventado uma ligação entre um móvel e um grupo de marionetes para que ela pudesse deitar na cama e fazer com que as bonecas da família Soria dançassem para ela. Quando ela tinha nove anos, começou a desenvolver uma linguagem secreta com seu pai, Francisco Soria, e eles ainda estavam a aperfeiçoando, mesmo agora, anos depois. Na sua forma escrita, era construída inteiramente de cordas de números; na sua forma falada, era cantada em notas que correspondiam a fórmula matemática do sentimento desejado.

Aqui estava uma coisa que Beatriz queria: dedicar seu tempo para entender como uma borboleta era parecida com a galáxia. Aqui estava uma coisa que a assustava: ser solicitada para fazer qualquer outra coisa.

“Você acha que Mama ou Nana estão ouvindo?” Joaquin (Diablo Diablo!) insistiu. Ele não queria que sua mãe ou sua avó descobrissem sua identidade alternativa, mas ele ansiava que elas ouvissem Diablo Diablo e sussurrassem uma para outra que esse DJ pirata soava maravilhoso e como Joaquin.

“Não se o alcance não melhorou,” Beatriz repetiu.

Era uma pergunta que ela já havia feito para si mesma. O sinal da primeira transmissão deles havia atingido apenas algumas centenas de metros, apesar da grande antena de TV que ela havia acrescentado ao sistema. Agora sua mente percorria cada lugar em que o sinal podia estar escapando antes de chegar a antena.

Joaquin soou grosseiro. “Você não tem que falar assim.”

Beatriz não se sentiu mal. Ela não havia dito assim. Apenas havia dito. Algumas vezes, no entanto, isso não era o suficiente. De volta para casa em Bicho Raro, algumas vezes a chamavam de la chica sin sentimientos. Beatriz não se importava de ser chamada de garota sem sentimentos. Aquele fato parecia verdadeiro o suficiente para ela. “De qualquer forma, como elas poderiam? Nós pegamos o rádio.”

Todos examinaram o rádio transistor roubado do balcão da cozinha de Antonia Soria.

“Passos pequenos, Joaquin,” Daniel aconselhou. “Até mesmo uma voz baixa ainda é uma voz.”

Esse era o terceiro primo e o mais velho naquela camionete. Haviam lhe dado o nome de Daniel Lupe Soria e ele tinha dezenove anos e seus pais haviam estado mortos por mais tempo que haviam estado vivos. Em cada junta dos dedos ele tinha uma tatuagem de olho, menos nos seus polegares, então ele tinha oito delas, como uma aranha, e ele cresceu um pouco como uma aranha, com membros longos e articulações proeminentes e corpo leve. Seu cabelo era suave e liso, até os ombros. Ele era o Santo de Bicho Raro, e era muito bom nisso. Beatriz e Joaquin o amavam muito, e ele os amava também.

Embora ele soubesse do projeto de rádio de Beatriz e Joaquin, não costumava os acompanhar, e normalmente estava muito ocupado com o assunto de milagres. Como o Santo, a ida e volta dos milagres ocupava a maior parte de seus pensamentos e ações, uma tarefa na qual ele aproveitava e se responsabilizava. Mas esta noite ele lutou com uma questão de importância pessoal, e ele queria passar tempo com seus primos para se lembrar de todos os motivos para ser cauteloso.

Aqui estava uma coisa que ele queria: ajudar alguém que ele não estava permitido a ajudar. Aqui estava uma coisa que o assustava: que ele iria arruinar toda sua família por causa desse desejo privado.

“Até mesmo uma voz baixa ainda é baixa” Joaquin respondeu violentamente.

“Um dia você irá ser famoso como Diablo Diablo e nós iremos ser os peregrinos, indo ver você em Los Angeles,” Daniel disse.

“Ou ao menos em Durango,” Beatriz corrigiu.

Joaquin preferia imaginar um futuro em Los Angeles do que um futuro em Durango, mas ele não protestou mais. A fé deles era o suficiente por agora.

Em algumas família, primos não significam nada, mas isso não era verdade para essa geração dos Sorias. Mesmo que o relacionamento dos Sorias mais velhos era com esfregar areias em pérolas, esses três primos Soria continuavam inseparáveis. Joaquin era fantasioso, mas naquela camionete, eles gostavam de sua ambição exagerada. Beatriz era remota, mas nessa camionete, Daniel e Joaquin não queriam nada mais do que ela estava disposta a oferecer. E todo mundo amava o Santo de Bicho Raro, mas nessa camionete, Daniel era capaz de simplesmente ser humano.

“Aqui. Vou checar o alcance agora,” Beatriz disse. “Me passa o rádio.”

“Pegue você,” Joaquin respondeu. Mas Beatriz apenas continuou sentada em silêncio até ele passar para ela. Não havia motivo em tentar ganhar de Beatriz.

“Eu vou com você,” Daniel disse rapidamente.

De volta em Bicho Raro havia um par de cabras gêmeas chamadas Fea e Moco que haviam nascido em circunstâncias notáveis. Era comum para cabras terem gêmeos, até mesmo tri-gêmeos, então não era surpresa que Fea e Moco eram gêmeos. O que não era comum era que Moco nasceu primeiro e então a mãe de Fea decidiu que não tinha energia ou interesse em realizar outro parto na mesma noite. Então, embora Fea tivesse ficado perfeitamente feliz em nascer apenas alguns minutos depois de sua gêmea, ela continuo no útero de sua mãe por meses, enquanto sua mãe trabalhava em ter motivação para entrar em trabalho de parto novamente. Finalmente, Fea nasceu. Seu tempo adicional no útero, longe do sol, havia deixado-a negra como o azeviche. Embora quem olhasse de fora achasse que Fea e Moco mal parecessem irmãos ou até mesmo que não tivessem parentesco, ambos permaneciam como gêmeos próximos, sempre atenciosos e gostando da presença um do outro.

Era assim com Beatriz e Daniel. Mesmo que Joaquin, Beatriz e Daniel fossem próximos, Beatriz e Daniel eram ainda mais. Ambos eram quietos internamente e externamente, e ambos tinham essa curiosidade faminta para descobrir o que fazia o mundo funcionar. Mas também havia essa proximidade criado por milagres. Todos os Sorias tinham o dom de performar milagres, mas em cada geração, nasciam alguns que eram mais adaptados para tarefa do que outros: Eles eram mais estranhos e mais sagrados do que outras pessoas, dependendo para quem você perguntasse. Daniel e Beatriz eram os mais santos no momento, e como Beatriz queria desesperadamente não ser o Santo, e Daniel queria um pouco mais, o equilibro foi alcançado.

Do lado de fora da camionete, o frio céu do deserto puxava para cima, para fora e para longe, uma história sem fim. Beatriz tremeu; sua mãe, Antonia, disse que ela tinha o coração de um lagarto – e era verdade que ela tinha uma preferência a répteis pela claustrofobia de calor. Embora Beatriz tivesse uma lanterna presa na barra da sua saia, ela não a pegou. Ela não estava nem remotamente preocupada com a Comissão Federal da Comunicação, mas ela também não queria chamar atenção para a localização deles. Ela teve um forte sentimento, da maneira que os Soria tinham as vezes, que havia um milagre acontecendo, e haviam dito a ela, da forma que é dito para todos Sorias, que haviam consequências em se interferir em milagres.

Então eles andaram na quase escuridão. A luz da meia lua era meio que suficiente para compreender as silhuetas de manzanita e arbustos. O zimbro lançou um cheiro úmido e quente e um cardo russo se agarrou na saia de Beatriz. A luz distante de Alamose amarronzava o horizonte, parecendo algo natural desse ângulo, como um nascer do sol prematuro. Da rádio, Diablo Diablo disse olhe, disse espere, disse escute, aqui está uma música que vocês não vão acreditar, uma música boa que não tocou o suficiente nos caras grandes.

Dentro da mente de Beatriz Soria, pensamentos se reviravam ocupados, como sempre faziam. Conforme ela e Daniel se moviam pela noite, ela pensou sobre a ingenuidade casual do rádio portátil que eles carregavam, e também sobre o tempo em que as pessoas imaginavam que o ar da noite era cheio de nada, e também sobre a expressão ar morto. E agora ela pensava, ao invés, sobre como ela estava se intrometendo através de uma cidade atômica cheia de químicos invisíveis, micro-organismos e ondas, a última apenas captável porque ela segurava essa caixa mágica capaz de receber as ondas e devolve-las para os ouvidos dos mortais. Ela se inclinou para esses sinais de rádio invisíveis como ela faria para um vento forte, e com uma mão agarrou o ar como se pudesse senti-los. Esse era um impulso que ela tinha com frequência, tocar o invisível. Ela havia aprendido, depois de anos sendo corrigida na infância, para guardar esses momentos para quando não havia ninguém assistindo. (Daniel não contava como alguém nesse assunto.)

Mas ela sentiu apenas a vibração lenta de um milagre se aproximando. O sinal do rádio começou a desgastar; outra estação estava se sobrepondo em uma sílaba aqui e ali. “Beatriz?” perguntou Daniel. Sua voz soava um pouco vazia, um copo sem água dentro, um céu sem estrelas. “Você acha que consequências são significativas se não a vemos por nós mesmos?”

Algumas vezes, quando uma pergunta é sobre um segredo, pessoas vão perguntar algo diferente mas relacionado, esperando receber uma resposta que servira para as duas perguntas. Beatriz percebeu que era isso que Daniel estava fazendo. Ela não sabia o que fazer sobre o fato de ter segredos, mas ela respondeu com o melhor que pode. “Eu acho que uma consequência não testada é uma hipótese.”

“Você acha que eu tenho sido um bom santo?”

Essa ainda não era a pergunta na sua mente, e de qualquer forma, ninguém que tivesse passado até mesmo um minuto em Bicho Raro teria falado contra a devoção de Daniel Lupe Soria. “Você é um melhor do que eu seria.”

“Você seria uma ótima santa.”

“A evidência não concorda com você.”

“Onde está sua ciência?” Daniel perguntou. “Um pedaço de evidência não é ciência.” Seu tom estava mais leve agora, mas Beatriz não foi confortada. Ele não estava normalmente perturbado, e ela não conseguia esquecer o som disso em sua voz.

Beatriz diminui o volume do rádio levemente para reduzir a estática. “Alguns experimentos apenas requerem um resultado para prova. Ou ao menos para provar que não é responsável testar uma segunda vez.”

Estática alta se prendia entre os dois primos, e eventualmente, Daniel disse, “Você já pensou que talvez estamos fazendo tudo errado? Todos nós?”

Essa era, finalmente, a pergunta verdadeira ao invés de uma escondida, embora não a questão verdadeira. Mas era um quebra-cabeça muito grande para ser perguntado em apenas uma noite.

O desenrolar da conversa foi interrompido por um estremecer no arbusto perto deles. Se torceu e tremeu novamente, e então uma sombra saiu dele.

Nem Beatriz ou Daniel estremeceram. Isso porque eles eram Sorias. Em sua família, se você fosse pular por causa de todas as sombras que aparecessem de repente, você precisava planejar ter uns bons músculos na panturrilha.

O rugido se tornou em um enorme voo de pássaro, e a sombra se tornou em um enorme pássaro em voo. As asas bateram perto o suficiente que o cabelo de Beatriz se moveu perto de sua bochecha: uma coruja.

Beatriz sabia muitas coisas sobre corujas. Corujas tinha olhos enormes e poderosos, mas esses globos oculares notáveis estavam fixos no lugar por protuberâncias ósseas chamadas anéis escleróticos. É por isso que as corujas precisavam mover suas cabeças para todas as direções em vez de mover seus olhos de um lado para outro. Diversas espécies de corujas possuem olhos assimétricos, o que as permite identificar com precisão a origem de um som. Muitas pessoas não percebem que, além de possuir uma poderosa visão e audição, corujas são muito atraídas por milagres, embora o mecanismo que atraí os pássaros para eles é pouco compreendido.

Daniel se inclinou para perto para desligar o rádio. O silêncio se precipitou ao redor deles.

No outro lado de onde a coruja havia aparecido, faróis distantes apareceram. Em um lugar como esse, você poderia andar pela noite toda sem ver outro veículo, então foi com interesse que Beatriz assistiu as duas pequenas luzes viajarem da direita para esquerda. Estava muito distante para ouvir, mas ela conhecia o som dos pneus no cascalho tão bem que seus ouvidos fingiram que escutavam. Ela levantou sua mão para ver se conseguia sentir o som com seus dedos.

Daniel fechou seus olhos. Sua boca se moveu. Ele estava rezando.

“Faróis! Vocês dois são estúpidos?” Joaquin havia ficado cansado de esperar por eles e agora chamava os dois da traseira da camionete. “Faróis! Por que vocês não disseram logo!

Beatriz fechou seus dedos e abaixou sua mão. Ela disse, “Eles não estão vindo para cá.”

“Como você pode saber!”

“Eles vão ir para…”

Ela levantou vagamente a mão e permitiu que esse gesto completasse o resto da frase.

Joaquin voltou para dentro para extrair os fios da bateria, depois voltou para fora e começou a puxar os fios do solo com uma energia fantástica e terrível. Mas Beatriz estava certa, como ela normalmente estava. Os faróis continuaram em seu caminho distante sem parar, iluminando antílopes imóveis e aglomerados de grama. O veículo estava indo, sem contestar, na direção de Bicho Raro. Não estava caçando o sinal de uma rádio, mas o de um milagre.

Daniel abriu seus olhos. Ele disse, “Eu preciso chegar lá antes que eles o façam.”

Não haveria milagre sem um santo.


Tradução e adaptação: Juliana Piazza – não reproduza sem créditos.
Fonte: Maggie Stiefvater | Mashable

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